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Networking: o mundo pertence a quem está bem informado

13 de fevereiro de 2018

Em tempos de globalização, não criar ou partilhar novas contatos e nem fazer parte de uma rede de informações é quase um pecado mortal. Pedir uma indicação, recomendar um profissional, coletar dados sobre um determinado assunto ou simplesmente mostrar-se disponível para trocar figurinhas é algo tão importante hoje quanto a própria formação acadêmica.

O termo que define isso é networking. A palavra em inglês significa, na prática, cultivar sua rede de relacionamento. Hoje em dia, ela está muito associada à recolocação profissional, embora seja muito mais do que isso. Acredita-se que atualmente cerca de 70% do preenchimento de vagas disponíveis no mercado parta de alguma informação passada por um amigo ou integrante de uma rede dessas. Mas essa via deve ter mão dupla: da mesma forma que se procura alguém na hora do sufoco, também é importante estar disponível quando for chamado por um dos integrantes dessa rede.

Alguns especialistas dizem que o networking é tão velho quanto a própria história do descobrimento do Brasil. Quando Pero Vaz de Caminha escreveu sua primeira missiva ao rei de Portugal, aproveitou e fez um bom networking: pediu a transferência do seu genro da África para Lisboa.

Instrumento clássico de marketing pessoal e troca de favores, a prática tomou corpo mesmo nos últimos anos, com a disseminação das ferramentas eletrônicas de relacionamento. Sem espaço nos meios acadêmicos – não é ensinado nas faculdades ou em cursos de especialização –, o networking é um componente fundamental da vida do profissional da área médica. É com essa rede que se pode, por exemplo, indicar sem medo de errar um colega de outra área para um paciente.

Entre os oftalmologistas brasileiros, a prática já é corriqueira. Difícil o profissional que hoje não faça parte de um grupo desse tipo. Para o oftalmologista especialista em córnea da Santa Casa de São Paulo e especialista em superfície ocular pela Universidade de São Paulo (USP), Richard Y. Hida, já no período da faculdade de medicina o estudante deve ter consciência da importância de um bom networking para a sua carreira profissional. “Hoje em dia quem não tiver um bom networking não tem nada. É fundamental ter uma rede confiável de pessoas que você possa indicar ou mesmo servir como referência de consulta. No nosso caso, por exemplo, se preciso de um otorrinolaringologista para indicar a um paciente, recorro à minha rede, que conta com cerca de 500 profissionais. É uma ferramenta a mais que hoje se torna indispensável”, diz Hida.

Ética e confiança

Mas, segundo o oftalmologista, responsabilidade deve ser a palavra de ordem quando se trata de cultivar os relacionamentos, principalmente os profissionais. “O coração de um bom networking é a confiança entre os integrantes da rede de relacionamentos. Ele só se mantém firme quando não há quebra de confiança. Quando você indica alguém ou pede a indicação de um colega, é preciso que haja uma grande dose de responsabilidade. Se algo de errado acontecer, não tem jeito, você acaba perdendo um pouco de crédito na rede”, avalia Hida. “É importante que todos se beneficiem e um possa estar disposto a ajudar o outro quando ele precisar.” O oftalmologista da Santa Casa diz que, em seu caso, se utiliza mais do networking para manter contato com colegas médicos de outras especialidades. “Converso muito com outros profissionais, que muitas vezes me indicam pacientes. Com médicos de outras áreas, a gente acrescenta no conhecimento. Além disso, com essa rede, não há risco de alguma ação antiética. O respeito é mútuo.”

Capital social

O psicólogo e sócio-diretor da Talent Solution, Gerson Correia, diz que as ferramentas eletrônicas, como Orkut e mais recentemente o LinkedIn, ajudaram a proliferar o conceito do networking. “O LinkedIn é mais profissional que o Orkut e ao mesmo tempo nos expõe menos. Nesse sistema, uma mensagem só chega até você por meio da pessoa que o convidou para entrar no grupo, não há o contato direto com qualquer pessoa. Você pode preservar seu e-mail, se quiser, mas ao mesmo tempo deixar disponível para que todos consultem seu currículo. Já o Orkut hoje em dia serve mais para reencontrar amigos do passado e também ajudar a lembrar datas de aniversário, por exemplo”, explica o psicólogo.

“Um networking de fato começa quando você pretende marcar e manter contato com os amigos do tempo de escola. Aí você vai ampliando isso, de acordo com sua disponibilidade diária. Não há um número ideal para se formar essa rede de relacionamentos. O importante é que tenha um grupo suficiente que você possa conviver e manter contatos constantes. Uma rede como essa é ilimitada”, explica Correia. Mas ele explica que para funcionar é importante que o networking esteja sempre ‘vivo’. “É uma ferramenta fundamental, principalmente para quem procura emprego. Ele é muito mais do que um grande agendão. Você pode divulgar nomes de colegas, fornecedores, fazer atualizações médicas e acompanhar o que outros profissionais estão fazendo. Mas isso só tem sentido se você de fato se utilizar dessa ferramenta. O networking é um ser vivo. É preciso reservar um tempo de seu dia para investir em contatos, bate-papos, reuniões, enfim, movimentar essa rede de relacionamentos. Ele é o seu capital social”, diz o especialista da área.

Homem algum é uma ilha

O professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto Harley Bicas também acredita na troca de informações por meio de rede de contatos. “O que caracteriza o mundo de hoje é a informação. Antigamente se usava carta e hoje, com a internet, as coisas estão mais aceleradas. Acredito que, principalmente para quem está iniciando a carreira, a troca de informações e experiências é fundamental. Um residente que se beneficia dessa movimentação sai na frente dos demais. As chances de sobrevivência no mercado de trabalho são muito maiores”, acredita.

Ele ainda dá uma dica que pode servir como inspiração para quem ainda não sabe o que significa networking: “No livro Homem Algum é uma Ilha, o autor Thomas Merton fala da importância de conviver em sociedade e buscar essas informações. Não há um isolamento possível. Vale a pena essa leitura”, recomenda o ex-presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

O especialista em retina e pós-graduando em doutorado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Paulo Augusto de Arruda Mello Filho lamenta o fato de que esse tipo de ação não faça parte da cadeira acadêmica. “O networking hoje é tudo para o médico, embora a gente não tenha isso enfatizado durante a faculdade e a residência. Nem mesmo os cursos ligados à administração falam sobre isso. Muita gente tem um networking e nem sequer percebe. Ele é útil para você indicar uma secretária, buscar novos funcionários para seu consultório e até saber mais sobre um determinado assunto. Isso está diretamente ligado ao sucesso profissional.” Ele também fala da seriedade em manter em ‘ebulição’ essa rede. “É muito sério isso. Não basta só construir e usufruir. É necessário ter a consciência de que se trata de uma via de mão dupla. Uma mão lava a outra. Quanto um ajuda o outro, todos saem ganhando”, explica o oftalmologista.

FONTE: REVISTA UNIVERSO VISUAL

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